REPUXA
Talvez você seja aquela pessoa que diz que não se interessa por política e que, se pudesse, nem sairia de casa para votar. Mas se você morar em um prédio residencial, os deuses da democracia têm uma vingança costurada só para você: a assembleia de condomínio, onde as decisões têm impacto direto na sua vida, os votos são todos relevantes e cada morador-eleitor tem direito a um horário eleitoral. Então cancele seus compromissos da noite, escolha uma cadeira de plástico perto da porta e conheça os oito tipos de morador que irão participar da sua reunião de condomínio.
Vinício dos Santos. 18 de agosto de 2026.
Vinício dos Santos.
18 de agosto de 2026.
Frase: “Eu acho importante todo mundo estar de acordo com isso”.
O que ele faz na reunião: o democrata radical é aquele morador que faz questão de que todos os presentes deem suas opiniões sobre os temas da reunião, sem jamais desconfiar de que serão opiniões merdas e sem cabimento. Outra das suas metas é garantir o condomínio de coalizão, em que todos os moradores têm suas demandas atendidas, mesmo que uma delas seja permitir que o rottweiller do Jorge do 702 cague no jardim da entrada, porque, afinal, tem que ver também o lado do cachorro, tadinho. Na hora de contar os votos, o síndico certamente terá a colaboração do democrata radical, que vai embarreirar uma contagem batendo 27 a 2 porque a dona Magali, do 301, estava distraída e não votou.
▶ O que ele faz fora da reunião: se candidata a vereador, com uma plataforma em defesa do seu direito de escolha, que os eleitores exercerão escolhendo qualquer outro candidato.
Frase: “…”
O que ele faz na reunião: fica com a mão levantada por muitos minutos até ser notado por alguém, que lhe passará um microfone sem qualquer utilidade, pois é um equipamento incapaz de amplificar sons audíveis para plantas. O tipo tímido incompreensível refletiu por muito tempo sobre aquele tema da assembleia e queria propor algumas questões para os demais moradores, mas tudo o que se escuta dele é “…mínio… respeito… achada…”, a que o resto da assembleia vai reagir dizendo amistosamente O QUE FALA NO MICROFONE.
Quando ele terminar, o síndico vai agradecer e balançar a cabeça de um jeito que não quer dizer nem sim nem não, enquanto as orquídeas do saguão vão comentar entre si que aquela ideia não tem nada a ver. O tímido incompreensível, pelo menos, estará satisfeito, porque conseguiu superar suas barreiras e vencer a timidez, do jeito que ele aprendeu lendo Café com Deus Pai.
O que ele faz fora da reunião: trabalha com atendimento ao público em algum órgão de governo e fica o dia inteiro atrás de um guichê com um vidro separador de 15 milímetros de espessura.
Frase: “No prédio do meu primo tem muito mais coisa e o preço do condomínio é o mesmo”.
O que ele faz na reunião: na hora de votar o reajuste do condomínio, esse tipo tira do bolso um parente que mora em um prédio que tem piscina, academia com 18 equipamentos e som ao vivo no elevador feito pelo Alok, e que paga o mesmo tanto que vocês, que moram em um MRV daqueles onde o seu banheiro dá exatamente na reta do banheiro do outro apê. O tipo grama do vizinho não tem nenhum plano de melhoria do prédio, porque a verdadeira expectativa dele é que Deus, o Grande Síndico do Condomínio do Universo, escute aquela queixa e corrija essa injustiça, fazendo aparecer uma piscina olímpica aquecida no saguão da reunião.
O que ele faz fora da reunião: pede um financiamento na Caixa Econômica Federal e reclama no banco que tem um primo que tem um salário maior, e ainda assim ganhou mais subsídio do Minha Casa Minha Vida do que ele.
Frase: “Parece que só eu estou prestando atenção nas coisas aqui”
O que ele faz na reunião: quando o síndico tratar dos custos do condomínio, o tipo detetive particular vai levantar a mão para dizer que, depois de analisar os balancetes, descobriu que há 7 mil reais que sumiram das contas do prédio e o síndico nunca percebeu – ou está fingindo que não percebeu. Este tipo tem certeza de que o dinheiro está sendo embolsado pelo síndico, porque é exatamente o mesmo valor que custa uma viagem para Bariloche na CVC, o lugar para onde a família do síndico viajou cinco anos antes.
A tentativa de revolução do tipo detetive particular, contudo, dura apenas alguns minutos, até que alguém que compreenda de operações matemática complexas – como somar números com vírgulas – lhe explique que não é bem por aí. Humilhado, o detetive particular senta novamente, mas é apoiado pelo tipo grama do vizinho para se manter vigilante com o patrimônio dos condôminos.
O que ele faz fora da reunião: acompanha podcast de true crime e fica dizendo aos colegas no serviço “no primeiro episódio eu já sabia quem tinha matado o rapaz”.
Frase: “Tem uma coisa que vocês não estão vendo”
O que ele faz na reunião: antes de uma votação abrir, esse tipo pede a palavra para alertar aos outros moradores que o problema, na verdade, é outro. Se a assembleia precisa decidir se vão despedir a faxineira porque o trabalho dela é mal feito, o sujeito vai argumentar que, desde a quebra do banco Lehman Brothers em 2008, houve uma diminuição no fluxo de empréstimos para o setor industrial, que levou a um processo de reduflação dos produtos de limpeza, que agora têm mais glicerina do que sabão e, por isso, o chão fica limpo por menos tempo. Ele entende do que está falando porque já trabalhou em banco e sabe que é assim.
Os outros moradores vão se mostrar impressionados com o raciocínio, e votar para demitir a faxineira do mesmo jeito, primeiro porque não podem fazer nada para resolver os problemas desse tal banco de alemão, e segundo porque é mais simples para a classe média colocar no rabo do mais fraco mesmo.
O que ele faz fora da reunião: passa uma hora colado na banca de tomates da quitanda, explicando que o el niño veio mais forte esse ano, para cada um que disser “o tomate tá feio, né”. Uma parte das pessoas voltará para casa ainda tentando entender o que tomate tem a ver com leite ninho.
Frase: “Isso aí vai gerar mais um aumento no condomínio”
O que ele faz na reunião: reclama que o condomínio vai aumentar outra vez. O tipo muquirana nunca ouviu falar dessa coisa exótica chamada inflação, porque seu cérebro é binário, permitindo que ele entenda somente dois conceitos: aumento ou não-aumento. Para ele, cinco centavos é aumento igual a cinco mil reais, então ele vota contra. Se houver a necessidade de algum reparo, o tipo muquirana se transforma no tipo MacGyver, aquele que sugere gambiarras temerosas só para não tirar dinheiro do bolso – como desligar a energia quando o elevador chegar ao último andar, deixando que a gravidade traga ele de volta para o térreo.
O tipo muquirana, o grama do vizinho e o detetive particular, muitas vezes, moram no mesmo apartamento, pois são a mesma pessoa – o que será uma sorte para os outros condôminos, que tem que aguentar só um chato na assembleia, ao invés de três.
O que ele faz fora da reunião: vai ao supermercado e reclama com um senhor sobre o preço do mamão, reclama com a moça da balança, reclama com o rapaz do caixa, reclama com o motorista que Uber já foi mais barato, e reclama no grupo do prédio, usando o modelo mais recente de Iphone lançado.
Frase: “Vai, vamos votar logo”
O que ele faz na reunião: se senta nas cadeiras do fundo do saguão e começa a bufar quando mais alguém pede a palavra antes de começar a votação. Esse tipo quer apressar todos os procedimentos da reunião: não quer esperar dar quórum; não quer que discrimine os gastos; não quer contar as mãos levantadas; e não quer nem esperar passar a dona Carminha, que caiu recentemente e está usando andador para se locomover.
Quando você ouve o tipo impaciente se manifestar, logo imagina que ele ou ela é um neurocirurgião que precisa correr para colocar um stent em um paciente com AVC – mas não. Depois que a reunião acabar, essa pessoa vai se sentar no sofá, colocar alguma novela no Globoplay e não assistir, enquanto presta atenção em vídeos de receita com só dois ingredientes no feed do tiktok.
O que ele faz fora da reunião: cutuca pessoas na costela para avisar que o caixa do supermercado está chamando. Em seguida, comenta com a pessoa do lado que odeia gente lerda e que não pode ficar ali o dia inteiro, que tem compromisso. Aí se distrai vendo stories e precisa ser avisada que o caixa está chamando.
Frase: barulhos de mensagem recebida no WhatsApp.
Enquanto todos esses personagens se digladiam na reunião – o tipo buraco é mais embaixo, inclusive, receberá um bilhete com uma ameaça de morte anônima ainda naquela noite, do tipo impaciente – um morador fará o papel de comentarista da reunião, talvez com a pessoa do lado ou no grupo de WhatsApp do condomínio. Serão sempre comentários muito gentis e que contribuem para a harmonia do prédio. Seguem algumas das mensagens:
“leva o cachorro para cagar no seu apartamento entao”
[gif de cachorro defecando e rodando]
“não entendi p nenhuma [emoji derretido]”
“sindico passa o mês viajando e acha que tem moral”
“falou falou e não falou nada”
“fala que não tem dinheiro mas faz churrasco com lata de heiniken”
vídeo “A verdade sobre as vacinas chinesas”
imagem “uma boa semana a todos com fé em Deus”
“essa ai fala que não tem tempo mas é que mais posta no grupo”
O que ele faz fora da reunião: comenta todas as fotos de mulher que cruzarem seu feed do Instagram com “gata d+ [cinco emojis de coração]”.
Publicado originalmente em dezembro de 2012, com o título “Sete tipos de morador que irão participar da sua reunião de condomínio”.
Vinício dos Santos fundou o Puxa Cachorra! em 2010 e, na impossibilidade de fazer uma loucura com o cabelo ao chegar aos quarenta, pois é careca, resolveu retomar o site. Além do Puxa!, publicou, de forma independente, o romance A Companhia dos Amigos (2020).
CRÉDITOS DAS IMAGENS: imagens geradas pelo Google Gemini e ChatGPT.
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