Blog do Puxa!

Nesta seção, eu, Vinício dos Santos, fundador do Puxa!, conto um pouco sobre o processo de escrita da página.

Como se faz remake de piada

25 de agosto de 2026

Tenho tantos, e já li tantas vezes os livros do Luís Fernando Veríssimo, que consigo perceber quando, em uma coletânea mais recente, ele estava reciclando crônicas ou fazendo atualizações nelas. O meu remake favorito é o da crônica “Direitos Humanos”, que li pela primeira vez no O Analista de Bagé, de 1983.

Na história, um motorista de ônibus turístico, carregado de americanos andando pelo Rio de Janeiro, interrompe a viagem para pegar na rua o filho de um bicheiro que lhe devia uma grana. O moleque, para escapar da surra, tenta ganhar a simpatia das velhinhas do ônibus, e consegue ir enrolando todo mundo até os turistas descerem. Quando o motorista enfim vai acertar as contas, o rapaz diz que entregou um bilhete para uma das senhoras levar para o Jimmy Carter, que vai proteger os direitos humanos dele. Aí o motorista responde “Pois quem é o presidente agora lá é o Reagan e sabe o que que o Reagan gosta de fazer com vagabundo?”.

A crônica foi publicada de novo no Comédias para se ler na escola, de 2001, com uma adaptação: o filho do bicheiro diz que mandou um bilhete para o Clinton, e o motorista diz a mesma coisa, avisando que não adiantava nada, porque o presidente agora era o Bush. Acho que este texto não foi republicado, mas ele poderia ser atualizado sem nenhum prejuízo, com o bilhete para o Obama ou o Biden, e chegando nas mãos do Trump. Suspeito que americanos elegem essas pessoas só para manter a crônica do Veríssimo atual.

Essa história voltou a minha cabeça agora que estou fazendo uma espécie de remake das listas originais do Puxa, com os textos reescritos e algumas piadas atualizadas. Nesse que publico agora, “Seis transtornos para reformar uma casa que você só descobre depois que começou”, passei por isso duas vezes, por razões diferentes.

Na primeira, a piada original era sobre gastar dinheiro demais com reforma, mas como tudo mundo sabe que isso é esperado, não se pode reclamar – igual a contratar o Ronaldinho Gaúcho. Em 2015, quando o texto saiu, o Bruxo já estava em declínio de carreira, exigindo absurdos para jogar, e volta e meia deixando o time na mão. Para mim, esse é um exemplo de piada datada, porque a referência à situação já se diluiu. Mas assim como os americanos elegem seus presidentes, o futebol brasileiro também repete suas loucuras, e eu pude manter a piada, substituindo Gaúcho por Memphis Depay e seu contrato inacreditável com o Corinthians.

Já a segunda piada mudou pelas tragédias do mundo mesmo. No último item, sobre como os profissionais brigam entre si, a lista original dizia que até mesmo dois moradores de lados distintos da Faixa de Gaza se entenderiam melhor. Diante do horror na Palestina, essa piada não tem qualquer graça, e eu encontrei a solução para ela com uma referência literária de ódio: os Montéquio e os Capuleto de Romeu e Julieta.

Puxa Cachorra de volta? Nesta internet?

21 de agosto de 2026

Chega um ponto na vida de qualquer um quando bate uma vontade de fazer uma loucura – tipo descolorir o cabelo. Como isso não era uma opção para mim, pois careca, tive que apontar minha insatisfação para a única loucura inofensiva à disposição: retomar o Puxa Cachorra!

Escrevi o Puxa! entre 2010 e 2015 e tenho uma certeza cristalina de que estes são os melhores textos que já fiz. De tudo que já escrevi – e já tentei romances, manuais, críticas, crônicas – são as listas do Puxa! que me deixam mais contente, porque misturam um aspecto sério, na pesquisa meio jornalística das informações, com a avacalhação total do humor.

Porém, retomar um blog de humor no ano da graça de 2026 é uma decisão pra lá de estúpida e que já nasce sob o signo do fracasso total: o uso de internet hoje é integralmente nas redes sociais e nos aplicativos, e o que sobrou da “internet de verdade” foi destruído quando o Google passou a privilegiar respostas com IA como resultado de buscas. Um site, hoje, é como uma daquelas lanchonetes que abrem onde não há movimento – você olha e se pergunta: “ninguém avisou esse cara de que nessa rua não passa ninguém?”.

A escolha natural seria por alimentar perfis nas redes sociais – mas ela seria ainda mais frustrante. Na lógica dos algoritmos, é possível até conquistar números de seguidores, sem nenhuma garantia de que seus conteúdos são entregues para eles. Além disso, uma experiência ou outra que tive com viralização de piadas no Threads me mostraram que a internet atual é uma selva de malucos muito mais malucos do que os de dez anos atrás – e nenhum destes doidos vai se dar ao trabalho de vir para a minha lanchonete no fim do mundo, o que é um alívio.

O que vou conseguir alcançar com esse retorno do Puxa! é uma espécie de anti-internet. Quando tudo é engajamento e tentativa de descolar um trocado, eu coloco no ar um trabalho que não vai ganhar um centavo de publi e que proporciona a experiência da leitura restrita a seu leitor, que lê, e depois ri ou se ofende na própria casa, sem manifestar sua opinião de volta, como fazíamos quando assistíamos TV.

Enfim, a lanchonete está novamente aberta ao público, sob a mesma direção. Se der tempo e você ainda lembrar o caminho, apareça qualquer dia para comer um salgado.

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Esta página não faz uso de IA para escrever seus textos, porque tem a dignidade de produzir porcarias por conta própria.