Seis coisas que mudaram no mundo desde a última vez que escrevi para o Puxa Cachorra!

Era setembro de 2015 quando publiquei pela última vez no Puxa Cachorra! e, olha, as coisas mudaram. Se a gente pensar como era o mundo dez anos atrás, vai ter a mesma reação dos romanos que iam visitar seus parentes distantes e falavam “porra Zé Carlos, mas vocês tão nessa de usar bronze ainda? Pelo amor de Deus, por isso que essa Mesopotâmia tá acabando”. Então, se alguém entrou em coma naquele ano e só acordou agora, o Puxa! retorna com uma lista sobre como anda o estado das coisas (adivinhe só, não anda nada bem).

👤 Vinício dos Santos. 16 de agosto de 2026.

👤 Vinício dos Santos.
16 de agosto de 2026.

#6 Tudo agora é aplicativo

Uma parte grande dos apps de celular são realmente práticos, e a gente jamais conseguiria viver, por exemplo, sem pagar coisas por PIX, ainda mais agora que isso deixa os americanos contrariados porque não são mais protagonistas – uma coisa que a Rebeca Andrade já tinha feito por nós em 2024. Mas quando qualquer interação humana começa a ser trocada por um app, brota uma maluquice de tentar tornar eficiente coisas que já eram eficientes, como ligar para o barbeiro e dizer “marca um corte para mim às 10h, obrigado”.

Isso sem falar nos apps de compra: cada um com uma interface, com regras próprias, oferta de brindes e descontos desde que você cumpra as condições, e fotos bem diferentes das coisas que realmente chegam na sua casa. Ou seja, apps de compra são uma versão para celular do antigo catálogo da revista Hermes.

▶ Então já que é assim… vamos mediar todas as coisas da vida com apps. Você vai conhecer uma moça no Tinder, e vão marcar um jantar no aplicativo do CocoBambu, o Camaronr. Depois de passar a noite conversando pelo WhatsApp, cada um pega seu Uber para se encontrar no motel virtual Stimlus, onde terão uma noite de amor tórrida no app Fuckr. Como nenhum de vocês assinou a versão premium, o app deixa a opção “sem camisinha” ligada por padrão, e então, sem que vocês saibam, ele também abre o app Spermer, com bônus de fecundação aumentada em 5X no primeiro uso. Umas semanas depois, quando a moça sentir tonturas e enjoos, é só abrir a câmera do app PregNancy e escanear o QRCode que saiu na urina. Se o resultado for positivo, seus apps RevelaBaby vão acessar sua lista de contatos e enviar o convite do chá revelação para todos os seus amigos. Felicidades!

#5 Tudo agora é CPF

Ninguém mais tem um dia de sossego sem que um lojista tente capturar seu CPF na hora de passar no caixa. E não é para uma finalidade moralmente aceitável, como abrir uma empresa laranja para lavar dinheiro de bet irregular, mas para alimentar um enorme banco de dados sobre seus hábitos de consumo, e te fazer comprar mais coisas. Não sei se esses conjuntos de dados estão interligados, mas imagino uma cena, como um conselho de classe, em que os setores produtivos se reúnem diante de um telão, que exibe pessoa por pessoa, e traçam os próximos passos:

– Vamos lá. Farmácia DrogaBoa. O que a gente tem sobre o 248.247.956-47 essa semana?

– Três caixas de tadalafila em cinco dias.

– Obrigado. Supermercado Precinhos?

– Pet 2 litros do energético PowerMan sabor pinho, e um halls preto.

– Obrigado. É essa semana que vem aquele infarto, pessoal. Sugestões do que combina com infarto, alguém?

▶ Então já que é assim… vamos recolher ainda mais dados de consumidor, para ter um banco de dados ainda maior e vender ainda mais coisas:

– Informa o CPF, por favor.

– 853.648.125-59

– Arroba do Instagram.

– É, arroba fernandim underline 479 underline cafelover.

– Votou monarquia, república ou parlamentarismo no plebiscito de 92?

– Parlamentarismo.

– Trauma de infância?

– Tinha muito medo do menininho que ia dormir no comercial do Cobertores Parahyba.

– Obrigado, senhor. Aqui seu cupom de ofertas. Tá com 20% em toda linha Johnsons.

#4 Tudo agora é algoritmo

O algoritmo das redes sociais é como aquelas pessoas que entregam panfleto na rua: não há qualquer maneira de saber se eles fizeram mesmo o que se esperava deles. O entregador de rua, pelo menos, é honesto. Quando ele não quer trabalhar, pega os panfletos da sua churrascaria, vai até um terreno baldio e queima todos numa lata de tinta. Já o algoritmo é o caos: se fosse um entregador, talvez ele escondesse seus panfletos num armário, talvez imprimisse mais um milhão deles, ou quem sabe abordaria as pessoas perguntando “você é vegetariano?” e deixaria um panfleto na mão de quem respondesse sim.

Já houve um tempo em que os algoritmos serviam para te manter por mais tempo usando a internet, dando mais do que você gostava. Como o máximo de tempo já foi alcançado, a turma das Big Techs simplesmente apertou o botão “desgraçar a cabeça”, e agora o algoritmo manda conteúdos que gostamos, que não gostamos, que não entendemos, que não fazem sentido, que são golpes, e anúncios de barbeador para os órgãos genitais.

Então já que é assim… vamos deixar que os algoritmos organizem todas as nossas experiências. Na biblioteca, ao pegar um livro do Suassuna e outro do Veríssimo, o bibliotecário enfia na sua bolsa “Minha luta”, do Hitler, pensando no seu interesse em coisas com SS. Na feira, depois de comer um pastel de carne, todas as barracas de fruta somem e são substituídas por leilões de gado nelore. E no futebol, a seleção brasileira formada pelo algoritmo teria um técnico estrangeiro, um craque, uns caras do campeonato saudita, uns do Flamengo e mais alguns do segundo escalão da Europa.

#3 Tudo agora é polarização

Quem reclama que não pode mais fazer nada por causa da polarização da política brasileira poderia, um dia, colocar a mão na consciência e se perguntar: e se o motivo pelo qual as pessoas não gostam de mim não for porque eu sou um chato insuportável?

No fundo, a gente quer acreditar naquele conceito do desenho do Pateta no trânsito, de que o sujeito só fica diferente quando está em uma situação específica, mas a verdade é que chato que defende direita ou esquerda é chato com qualquer outra coisa. Nos anos 90, você também era o chato que ficava transtornado porque as pessoas votavam na outra opção do Você Decide, não lembra? Como assim a secretária deve trocar de emprego depois que descobriu que os gêmeos da contabilidade na verdade eram uma pessoa só? Vocês estão malucos! Por isso que esse país está do jeito que está.

▶ Então já que é assim… vamos polarizar tudo em direita e esquerda. A partir de agora, a Bluey é de direita e o Caillou de esquerda. Nescau é de direita e Toddy de esquerda. Deezer é direita e Spotify é esquerda. Papel A4 é direita e Papel Carta é esquerda. E escrever com a mão esquerda é de direita, e escrever com a direita é de esquerda, só para confundir.

#2 Tudo agora é IA

A Inteligência Artificial Generativa deve ser a tecnologia que desandou mais rápido na história humana. Em três anos, saímos de “mas que coisa legal e adorável” para “não deixe chegar perto da nossa água, e vamos acabar com tudo na base do fogo” – o que, se a gente parar para pensar, era exatamente o enredo do Gremlins.

O ChatGPT e seus asseclas são uma espécie de fábrica de nuggets, em que o frango é a cultura humana. Misture tudo, processe, deixe num formato que as crianças gostem e pronto, você tem um negócio que alimenta e resolve um almoço. Comer uma caixa de nuggets uma vez ou outra não tem problema: mas pense em quantas coisas inventamos na cozinha quando tínhamos poucos recursos, ou quando estávamos cansados do mesmo sabor. Agora reverta a analogia e veja como fica evidente como escrever um comando num chat e receber uma solução pasteurizada é um ataque a nossa capacidade de criar, mesmo para quem acha que não tem uma. 

Então já que é assim… eu ia escrever “vamos usar IA para tudo”, mas já chegamos nesse ponto. Então minha ideia radical é “vamos construir uma máquina do tempo e usar IA no passado”. Pense nas possibilidades que o ChatGPT poderia oferecer para o passado: retroativamente, a IA auxiliaria os egípcios a errar por uma margem muito maior o alinhamento das pirâmides, oferecer a Leonardo da Vinci um prompt bacana para ajudar nas pinturas (“chat, mude a imagem dessa moça para que ela fique com um sorrisinho enigmático de quem está escondendo alguma coisa”), e até mesmo revisar textualmente literatura e filosofia, oferecendo a Guimarães Rosa uma reescrita completa de Grande Sertão: Veredas, para mais clareza e objetividade, e sugerindo ajustes pontuais para o Discurso do Método de Descartes, como “penso – logo existo”.

#1 Tudo agora é publi

O número de perfis vendendo coisas nas redes sociais hoje é tão grande que estamos quase chegando ao ponto de inflexão, quando haverá mais gente vendendo coisas do que coisas para serem vendidas, e o único mercado inexplorado será o da metalinguagem, em que a coisa a ser vendida serão vídeos de pessoas vendendo coisas.

Enquanto alguns influencers ganham dinheiro para falar sobre uma marca – às vezes, contando uma historinha curiosa sobre a origem da palavra “sinuca” só para anunciar que a Renner está fazendo uma tacada de mestre com 20% off no app – outros apenas recebem produtos, e eu me pergunto se é realmente possível que essas pessoas se sustentem um mês inteiro só comendo blush e rímel da Wepink.

No mundo real, a gente logo sai das lojas em que o vendedor é grudento, te empurrando de tudo quando você disse que só está de passagem. Talvez essa fosse a solução para tornar as redes sociais menos insuportáveis: a ativação de uma opção “só estou dando uma olhadinha, obrigado”.

Então já que é assim… vamos aproveitar todas as oportunidades da vida para fazer publi. Mencione casualmente para seus colegas de trabalho que você bebeu muita água Cristal e que agora precisa ir ao banheiro com um sanitário Deca fazer xixi e se limpar com papel Neve. Venda os naming rights do seu próprio nome, assim o atendente da Starbucks terá que gritar “Amanda Magazine Luiza”. E seja ousado: troque a foto da sua CNH por um QRCode com link de afiliado da Shopee: toda vez que você for parado em uma blitz, pode ser liberado e ainda receber uma comissão com a venda.